Crítica | Adolescência
- Redação neonews
- 11 de mar.
- 3 min de leitura
A série Adolescência é um olhar cru sobre os laços familiares e sociais

(Foto: Divulgação)
No meio do mar de conteúdo que invade o streaming diariamente, “Adolescência” se ergue como uma obra singular e desconcertante. A nova minissérie da Netflix, produzida e protagonizada por Stephen Graham, com roteiro de Jack Thorne, não é apenas mais um drama criminal, mas um estudo profundo sobre culpa, negacão e a complexidade dos laços entre pais e filhos. Com quatro episódios meticulosamente construídos em planos-sequência, a direção de Philip Barantini transforma cada cena em um golpe de realidade, envolvendo o espectador numa tensão crescente que se desenrola sem cortes, sem escapismos e sem concessões.
A história gira em torno de um crime brutal ocorrido no interior da Inglaterra, onde o principal suspeito é um jovem de apenas 13 anos. No entanto, ao contrário do que se espera de uma produção desse gênero, “Adolescência” não se debruça sobre a investigação para revelar culpados. A série assume que as respostas já estão postas desde o início e foca sua narrativa nos desdobramentos emocionais, psicológicos e sociais que o crime provoca em todos ao redor. A pergunta não é “quem fez?”, mas sim “como chegamos até aqui?”.
A direção de Philip Barantini é um dos maiores triunfos da série. O uso de planos-sequência não é apenas uma escolha estilística, mas uma ferramenta essencial para criar imersão. Cada episódio, com cerca de 50 minutos, se torna um longo respiro contido, onde a tensão cresce sem interrupção. Essa abordagem dá ao público a sensação de estar dentro daquela casa, daquela delegacia, daqueles corredores escolares, observando a maneira crua e dolorosa como a realidade se impõe aos personagens.
O elenco entrega performances poderosas, mas sempre contidas dentro da sobriedade que a narrativa exige. Stephen Graham, como de costume, brilha ao interpretar um pai que oscila entre a negação, a raiva e uma busca desesperada por compreender o inexplicável. Os demais atores acompanham essa intensidade com atuações naturais e carregadas de subtexto. A família do acusado é retratada com um realismo brutal: do choque inicial à progressiva aceitação do que aconteceu, cada cena carrega um peso emocional que ressoa na audiência.
Outro aspecto impressionante de “Adolescência” é sua análise sutil, mas cortante, sobre as instituições que deveriam amparar a sociedade. A polícia, embora objetiva e metódica, se mostra desconectada da realidade dos jovens, incapaz de compreender suas interações e dinâmicas sociais. O sistema escolar, por sua vez, falha em perceber os sinais, em intervir antes que seja tarde demais. Os próprios adolescentes, muitas vezes alheios à gravidade dos acontecimentos, lidam com seus traumas e pressões de maneira destrutiva, convertendo o conceito de liberdade em um paradoxo de opressão.
A escolha de não entregar ao público uma fácil catarse é o que torna “Adolescência” tão impactante. A narrativa não oferece vilões claros ou heroísmos redentores; tudo é uma espiral de sentimentos e responsabilidades compartilhadas. A ausência de trilha sonora em momentos cruciais intensifica a crueza da narrativa, tornando o silêncio um elemento tão potente quanto qualquer diálogo.
No fim, “Adolescência” se revela mais do que uma história sobre um crime. É um retrato doloroso e extremamente humano da relação entre pais e filhos, das falhas do mundo adulto em compreender a juventude e da necessidade urgente de se reavaliar os alicerces da sociedade moderna. Uma série que não só se assiste, mas se sente. E que, com certeza, deixa marcas.
Ficha Técnica
Nome: Adolescência
Tipo: Série
Onde assistir: Netflix
Categoria: Drama
Duração: 1 temporada
Nota 5/5